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Bíblia

O bom samaritano e a fé que se aproxima

Uma parábola para olhar de novo as pessoas que encontramos no caminho.

Bíblia aberta e terço de madeira à luz da manhã

Você percorre quase sempre os mesmos caminhos: a rua da casa, o corredor do trabalho, o ponto de ônibus, a porta da igreja. Em alguns dias, a necessidade de alguém aparece com clareza. Em outros, ela passa depressa, misturada à pressa, ao cansaço e às mensagens que pedem resposta. A parábola do bom samaritano, em Lucas 10,25-37, não foi contada para que você admire um personagem generoso à distância. Ela começa com uma pergunta sobre a vida eterna e termina com outra, mais incômoda: quem se fez próximo daquele homem ferido. A fé que permanece só no discurso consegue explicar o mandamento e, ainda assim, seguir em frente. A fé que se aproxima interrompe o passo, olha de verdade, pergunta o que é preciso e faz o que está ao seu alcance. Nesta semana, alguém pode estar mais perto do que você imagina. A questão não é montar uma teoria sobre o amor. É reconhecer o chão em que você pisa e a pessoa que está nele.

A pergunta que tenta delimitar o próximo

Um doutor da lei se aproxima de Jesus para pô-lo à prova. A pergunta parece piedosa: o que é preciso fazer para possuir a vida eterna. Jesus não inventa uma resposta nova. Devolve o homem às Escrituras. O doutor responde bem: amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e o teu próximo como a ti mesmo. Até aqui, a conversa poderia terminar em acordo. O texto, porém, continua, porque o homem quer justificar-se e pergunta: e quem é o meu próximo.

Essa segunda pergunta tenta desenhar um círculo. Se o próximo for o parente, o amigo, o correligionário, o dever fica administrável. Você sabe a quem deve atenção e a quem pode, com boa consciência, deixar para depois. Jesus não entrega uma lista de nomes. Responde com uma história que coloca você na estrada, não na arquibancada. A parábola não existe para que você classifique os outros. Existe para que você descubra se está disposto a se tornar próximo de alguém que não escolheu.

Leia Lucas 10,25-37 inteiro, sem pular para a “lição”. Observe o movimento: uma pergunta sobre a vida eterna, um resumo da Lei, uma tentativa de delimitar o dever e, então, um homem caído entre Jerusalém e Jericó. A fé que se aproxima começa aí: não quando você já sabe quem merece ajuda, mas quando aceita que o Evangelho pode interromper o seu critério.

Quem passa e quem para

Um homem desce de Jerusalém a Jericó, cai nas mãos de salteadores, é despido, espancado e deixado meio morto. Pela mesma estrada passam um sacerdote e um levita. Os dois veem. Os dois seguem adiante. Não são personagens inventados para ridicularizar o culto. São pessoas ligadas ao serviço de Deus. A incomodação da parábola está exatamente nisso: é possível ter linguagem religiosa correta e, ainda assim, não parar.

No Angelus sobre o bom samaritano, Francisco observa que aquelas duas figuras, dedicadas ao culto, provavelmente seguiram em frente para não se contaminar com o sangue. Antepunham uma regra humana, ligada ao culto, ao grande mandamento de Deus, que deseja antes de tudo a misericórdia. A crítica não é à liturgia, nem ao sacerdote como tal. É ao uso da religião como motivo para manter distância da carne ferida. Deus não é honrado por um coração que contorna o corpo caído e chama isso de fidelidade.

Fonte: Francisco — Angelus sobre o bom samaritano, 14/07/2019

Antes de apontar o dedo para o sacerdote e o levita, convém perguntar onde você faz o mesmo. Há um colega calado no trabalho e você muda de assunto. Há um parente que repete a mesma queixa e você já prepara a resposta enquanto ele ainda fala. Há alguém na porta da igreja, depois da missa, e o seu corpo já está virado para o estacionamento. Passar adiante nem sempre é crueldade explícita. Muitas vezes é apenas a defesa de uma agenda que não admite interrupção. A parábola não pede que você abandone as suas responsabilidades. Pede que você reconheça quando a pressa se tornou um modo de não ver.

Os verbos que a fé precisa aprender

O samaritano também vê o homem. A diferença não começa no olhar, começa no que o olhar provoca. Ele se compadece, aproxima-se, trata as feridas com azeite e vinho, carrega o ferido no seu próprio animal, leva-o a uma estalagem, cuida dele, paga a hospedagem e promete voltar para acertar o que faltar. A parábola é feita de verbos. Nenhum deles é um slogan. Cada um custa tempo, dinheiro, risco e interrupção da viagem.

Ver não é o mesmo que diagnosticar à distância. Aproximar-se implica descer do próprio ritmo. Tratar as feridas é tocar o que está sujo, dolorido, inconveniente. Carregar o outro no próprio animal é aceitar que o seu caminho agora inclui o peso de alguém. Pagar e prometer voltar é permanecer responsável depois do primeiro gesto. A fé que se aproxima não se contenta com uma emoção bonita no instante em que a cena aparece. Ela permanece o tempo suficiente para que a pessoa ferida não seja abandonada outra vez.

Você pode reler o trecho e marcar esses verbos no caderno ou na margem da Bíblia. Depois, pergunte quais deles existem na sua semana e quais desapareceram. Talvez você veja bem e fale pouco. Talvez fale muito e não se aproxime. Talvez se aproxime uma vez e não volte. A parábola não exige que você faça sozinho tudo o que o samaritano fez, no mesmo dia, com a mesma intensidade. Ela mostra, porém, que a misericórdia tem um percurso. Sem percurso, o sentimento vira comentário.

A compaixão que se verifica no corpo

Francisco insiste que a chave da narrativa é a capacidade de ter compaixão. Jesus inverte a pergunta do doutor da lei. Não somos nós, a partir dos nossos critérios, que definimos quem é próximo e quem não é. É a pessoa em necessidade que deve poder reconhecer quem se fez próximo dela, quem teve compaixão. Se diante de alguém necessitado o coração não se comove, algo está errado. A pedra de toque não é o discurso sobre o amor, é a misericórdia diante de uma vida humana em situação de necessidade.

O Papa lembra ainda uma cena cotidiana: você vê um desabrigado no chão e passa, ou conclui depressa que aquilo é efeito do vinho. A pergunta útil não é primeiro sobre o estado daquele homem. É sobre o seu próprio coração: ele endureceu, esfriou, aprendeu a classificar para não se envolver. Jesus é a compaixão do Pai por nós. O Pai se aproxima da nossa dor, do nosso pecado, das nossas misérias. Por isso o Evangelho pode dizer: sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso.

Fonte: Francisco — Angelus sobre o bom samaritano, 14/07/2019

Isso não transforma a fé em um festival de emoções. A compaixão cristã se verifica no corpo: no tempo que você cede, na conversa que você não corta, no pão, no transporte, no acompanhamento até a porta certa. Há dias em que o coração parece seco. Nesses dias, o gesto honesto ainda pode acontecer. Você não precisa esperar um sentimento intenso para dar o primeiro passo possível. Muitas vezes o coração se reeduca depois que os pés param.

Quem está perto de você nesta semana

A parábola fica inofensiva quando o “próximo” vira uma categoria abstrata. “Os pobres”, “a sociedade”, “o mundo” cabem no discurso e raramente cabem na agenda de terça-feira. O caminho da fé pede um nome. Quem, nesta semana, está ao alcance da sua vista e da sua responsabilidade. Não se trata de escolher a dor mais dramática da internet. Trata-se de não passar adiante da pessoa que Deus colocou no seu percurso real.

Pense no trabalho: alguém novo no setor, alguém sobrecarregado, alguém que errou e ficou exposto. Pense em casa: a criança que fala e encontra você no celular; o cônjuge que relata o dia e recebe um “tá”; o parente idoso cuja ligação você adia porque “depois rende mais”. Pense na paróquia: a pessoa que fica sozinha depois da missa, o voluntário já cansado a quem só se pede mais uma tarefa, o jovem que aparece e não é apresentado a ninguém. A proximidade começa quando você admite que esses rostos não são figurantes da sua vida espiritual.

Escolha um. Não três, para se sentir generoso no papel. Um. Diga o nome na oração. Observe o que você já sabe e o que ainda não perguntou. A fé que se aproxima não precisa de um projeto grandioso para começar. Precisa de um deslocamento pequeno e verdadeiro: sair do comentário interno e chegar perto o suficiente para escutar.

A ajuda que pergunta o que a pessoa precisa

Há um modo de “ajudar” que ainda é uma forma de passar adiante. Você decide o que o outro precisa, oferece a sua solução e segue a viagem mais leve, porque cumpriu o dever. A parábola não descreve o samaritano fazendo um discurso sobre o que o ferido deveria ter feito para não cair na estrada. Ele trata as feridas que existem. O cuidado concreto pergunta, olha, escuta. Sem isso, a caridade vira administração do seu próprio sentimento de utilidade.

Uma pergunta simples muda o gesto: o que te ajudaria agora. Talvez a pessoa precise de companhia no médico, não de um conselho sobre alimentação. Talvez precise que você fique em silêncio dez minutos, não que organize a vida dela. Talvez precise de dinheiro para o remédio, e nesse caso a delicadeza também é concreta: dar sem humilhar, combinar com clareza, não transformar o pão em palco. Talvez o que ela precise você não possa oferecer. Aí a honestidade é parte da misericórdia: eu não consigo isso, mas posso ir com você até quem consegue.

Escute a resposta inteira. Se não compreender, peça um exemplo. Repita com suas palavras o que ouviu, para ver se vocês estão falando da mesma coisa. Isso vale na família, no trabalho e na porta da igreja. A ajuda que não pergunta corre o risco de ser mais um peso. A ajuda que pergunta respeita a dignidade de quem já está ferido. Você não se torna dono da história alheia só porque parou na estrada.

Você não precisa resolver tudo sozinho

O samaritano não transforma a estrada em hospital permanente. Leva o homem a uma estalagem, envolve outra pessoa, paga o que pode e continua o caminho com a promessa de voltar. A misericórdia reconhece limites. Você tem horário, saúde, dinheiro, competência e um conjunto de vínculos que também pedem fidelidade. Querer salvar sozinho cada situação pode ser, no fundo, outra forma de protagonismo. O Evangelho não pede que você se substitua a Deus, nem à comunidade, nem aos serviços que existem para cuidar.

Há feridas que pedem o pároco, um grupo da paróquia, um familiar mais próximo, um profissional, uma instituição de assistência. Procurar esses caminhos não é frieza. É recusar o abandono e, ao mesmo tempo, recusar a onipotência. Você pode acompanhar até a porta, fazer a ligação, esperar na recepção, voltar no dia combinado. Também pode dizer, com verdade, que hoje só consegue isto. Uma promessa pequena cumprida aproxima mais do que uma oferta vaga que nunca se realiza.

Cuidado, ainda, com o turismo moral. É possível ler a parábola, condenar o sacerdote e o levita, comentar a insensibilidade do mundo e permanecer espectador. É possível visitar a dor alheia o tempo suficiente para ter uma opinião, uma frase, um sentimento elevado, e não voltar. A fé que se aproxima aceita o chão: uma pessoa, um gesto possível, um limite honesto e, quando for o caso, a companhia da Igreja. O mandamento não pediu que você resolvesse a estrada inteira. Pediu que você não passasse adiante de quem está caído no trecho que você percorre.

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